Fila de Sapateadores

Entrevista publicada no site da SIC, no dia 25 de Abril de 2009

 

Cristina Delius A bailarina portuguesa Cristina Delius dirige em Berlim, onde reside, a Tapa Toe Steptanzstudio, considerada pelos melhores bailarinos norte-americanos de sapateado como a melhor escola da especialidade na Europa.

Cristina Delius, que actuou quinta-feira no Porto, estudou dança clássica na sua Lisboa natal, onde trabalhou na Oficina Teatro e Dança e com o Ballet Gulbenkian antes de seguir para Paris, em 1984, onde estudou no Conservatório Marcel Dupré e prosseguiu a sua aprendizagem de sapateado Centre de Dance du Marais, com Victor Cuno.

No site de Cristina Delius na Internet podem ser vistas, em vídeo, várias das suas criações e excertos de alguns espectáculos.

"Tive a sorte de encontrar as pessoas certas nos momentos certos, o que me proporcionou a descoberta do sapateado", disse a bailarina no final da sua actuação no Teatro Campo Alegre, nas Quintas de Leitura, sessões de poesia que incluem música, performance e dança.

Em 1991 foi para Nova Iorque onde, enquanto estudava dança moderna com Merce Cunningham, aprofundou o estudo de sapateado (tap dance, designação norte-americana) com Brenda Bufalino, Ted Levy e Josh Hilberman, entre outros.

Frequentou também master classes com Gregory Hines (1946-2003) e Buster Brown (1913-2002), expoentes máximos do tap dance norte-americano.

"Entretanto, apaixonei-me por um alemão e mudei-me para Berlim, mas voltei a Nova Iorque em 1997 para dançar na companhia Manhattan Tap, de Heather Cornell, com Josh Hilberman, Max Pollak, Olivia Rosenkrantz, Jeannie Hill e Mike Minery", disse.

 

Sapateado e jazz

A sua vida centra-se agora na sua escola de sapateado, em Berlim, com constantes viagens a Nova Iorque, Paris, Barcelona e Lisboa, onde está também envolvida no ensino com Michel de Roubaix, actor e professor de sapateado que vive em Portugal desde 1979 e que conhece desde a adolescência.

"A escola norte-americana de sapateado está intimamente ligada ao jazz, diz-se mesmo que os sapateadores negros norte-americanos influenciaram muito os bateristas de jazz nos anos 20 e 30 e que estão na origem dos primeiros solos de bateria", afirma.

Cristina Delius considera que o sapateado europeu está ligado às diferentes tradições do folclore de vários países, desde a Irlanda à Espanha (flamenco) e Portugal, onde está presente no fandango ribatejano.

Mas, para Cristina Delius, estas são tradições de certa forma fechadas em modelos de execução colectiva estabelecidos há muitas gerações e sem grande evolução.

"O tap dance norte-americano está em constante evolução porque, tal como acontece com o jazz a que está tão ligado, é produto de uma expressão individual, mais livre", disse, frisando que a técnica norte-americana é completamente diferente da europeia, muito mais desenvolvida.

"Os norte-americanos apostam na evolução técnica, essencial para que possam alargar cada vez mais o seu horizonte de expressão individual e trabalhar qualquer tipo de música, o que é muito importante para mim", afirmou.

Cristina Delius confessou ter ficado fascinada com as Quintas de Leitura, onde actuou com Michel de Roubaix (acordeão e dança) e Beatriz Serão (percussão).

"É uma iniciativa magnífica, fiquei fascinada. Encher uma sala de teatro com público pagante para ver e ouvir ler poesia é algo de muito raro. Como portuguesa enche-me de orgulho que isto se passe no meu país. Não conheço em Berlim nada semelhante", afirmou.

Actualmente dá espectáculos em toda a Alemanha, na Europa e nos Estados Unidos e trabalha com um trio em Berlim com um contrabaixista alemão e uma guitarrista brasileira ali residente.

 

A equipa do Site do Sapateado acrescenta ainda que Cristina Delius actuou no Dia Mundial do Sapateado de 2008, em Palmela, e desde 2007 que tem marcado a sua presença em Lisboa através de workshops regulares de sapateado.